Les Chics
Uma viagem ao mundo de Zara, parte 4: visitando a fábrica
Eduardo Viveiros, de La Coruña | 27.04.2012

Impossível não ficar impressionado ao conhecer de perto as instalações da Zara, que é conhecida como uma das empresas de moda com a melhor logística. A fama não é gratuita, percebe-se ao entrar no centro de distribuição próprio da marca, no polo industrial de Arteixo, próximo a La Coruña.
O complexo, espalhado em metragem equivalente a onze campos de futebol (!), é ligado às onze (o número não é uma superstição) fábricas próximas através de túneis, que escoam toda a produção para o sistema automatizado responsável por separar os pedidos e entregas das 1800 lojas em 82 países.
A numeralha não acaba por aí. Depois de encaixotados, as peças chegam às araras no prazo máximo de 36 horas (no caso de países distantes como o Brasil) ou até em 24 horas, em países próximos alcançáveis via caminhões. Esse processo se repete duas vezes por semana, calendário de entrada de novas roupas nos pontos de venda.
Mais números? São produzidas perto de 480 milhões peças ao ano, fazendo o faturamento bater nos 14 milhões de euros (60% das vendas de toda a Inditex).
Boa parte da responsabilidade de todo esse sucesso espanhol é do modelo de negócios do mítico señor Amancio Ortega, criador da Zara em 1975. Atualmente o homem mais rico do país (e quinto na lista mundial), Ortega nunca foi fã de fotografias e se afastou do seu cargo no grupo em 2011 mas (dizem) continua extra-oficialmente passeando pelas fábricas.
Esperto, o espanhol perverteu a seu favor o modelo tradicional de criação têxtil, baseado em uma coleção fixa que é oferecida por seis meses aos clientes. No mundo de Zara (e todas as suas irmãs), a coleção inicial é mutante e reage às vontades dos consumidores.
Dentro da Inditex, o mantra é dizer que "a coleção é feita pelo cliente". Tudo por conta do feedback frequente que o centro de produção tem de todas as lojas, mostrando o que vendeu (ou não) e refletindo os pedidos feitos aos vendedores por peças ou tendências que ainda não estão nas araras.
Esse processo, segundo a propaganda interna, leva cerca de 15 dias - da criação para a fábrica, daí para a loja, com os comentários então voltando para a criação. Se uma peça faz sucesso, ela não é reeditada - mas inspira modelos parecidos para capitalizar sobre as vendas anteriores.
É essa a "fórmula secreta" da Inditex, que se transformou no gigante do fast-fashion em menos nesses 37 anos. Esperto, señor Ortega faturou em cima da globalização e do processo que fez a moda (e seus consumidores) ir mais atrás da escolha do estilo nas últimas décadas.
Na nossa visita à fábrica, a produção despachava um último lote de blasers pretos e atacava paletós de tweed com forro de animal print. Incontáveis peças rosas esperavam sua vez de embarcar, espalhadas pelo galpão em filas monstruosas.
Cópia inspirada pela Chanel? Alguns diriam que sim. Mas o assunto aqui é tratado com cuidado e, novamente, o mantra do cliente justifica. Segundo eles, a criação não é baseada em coleções das grandes marcas, mas no que eles sabem que as clientes estão com vontade de comprar.
Elas querem paletós de tweed rosa? Pois que tenham paletós de tweed rosa. Mas rápido, pois se acabar...

