Dossiê sobre os extremos: muito magra ou muito gorda?
25.08.2006

Deu nos principais jornais brasileiros, no comecinho de agosto: “Morre modelo na passarela”. A notícia dizia respeito à morte de Luisel Ramos, modelo uruguaia de 22 anos que sofreu um ataque cardíaco na Semana de Moda de Montevidéu. Luisel ficou vários dias sem comer por causa dos desfiles, tornando evidente seu problema de anorexia.

A lista de celebridades com distúrbios alimentares - como anorexia e bulimia - é grande. Os sacrifícios pela beleza sempre existiram; no entanto, só a partir dos anos 60 é que magreza passou a ser padrão de beleza. Durante as décadas de 40 e 50 Marilyn Monroe e Elisabeth Taylor chamavam todas as atenções com suas curvas  sinuosas, cinturinhas de pilão e quadris enormes. Esse modelo de mulher emplacou sem contestações até os anos 60 quando surge a modelo Twiggy e altera os padrões de beleza.

Segundo o filósofo francês Gilles Lipovetsky (autor do livro "O Império do Efêmero", da Companhia das Letras), a forma magra é extremamente libertadora para as mulheres, e por isso elas foram tão rápidas em aderir à novidade. “Libertadora” porque, anteriormente, as formas arredondadas simbolizavam a maternidade, ou seja, o papel reprodutor de uma mulher. A magreza foi, então, uma maneira de se livrar dessa imposição secular. Mas o assunto tomou tais proporções que ficou fora de controle.

Magras demais

Todos os movimentos de rebeldia começam de uma forma exagerada até encontrar seu equilíbrio. No caso da luta com a balança a coisa ainda está longe disso. Segundo o endocrinologista e nutrólogo João César Castro Soares, 90% das pessoas que contraem distúrbios alimentares são mulheres jovens. Ele conta que foi na década de 50 que a anorexia surgiu como doença séria. “A paciente mais jovem que já tratei tinha 12 anos. Essas mulheres têm uma auto-imagem completamente distorcida e sempre se vêem gordas, mesmo que não estejam”, diz o médico. A doença é tão séria que 10% dos casos de internação resultam em morte.

A assessora de imprensa Paloma Vega, 31, teve que fazer dois anos de tratamento para conseguir comer sem depois vomitar. O problema com a bulimia começou aos 15 anos de idade, quando ela achava que todas suas amigas eram “magérrimas, lindas e maravilhosas”. Na época, com 1,59 m de altura e 62 kg, Paloma se achava a única gordinha da turma. A pressão para ser magra gerou um relacionamento muito conturbado com comida. “Quando eu era pequena, não gostava de comer e apanhava por isso. Mais tarde, comecei a vomitar para poder ficar magra e cheguei a pesar 44 quilos com 20 anos”, conta Paloma.

Quando seus pais perceberam que ela não conseguia se alimentar sem devolver tudo o que comia, acharam que a filha tinha um problema gástrico. “Levaram-me em todos os médicos possíveis e nenhum deles conseguia descobrir a causa do problema. Até que, finalmente, um deles disse que era psicológico”, diz. Na opinião dela, a bulimia é uma doença para qual não tem cura: “Tenho que fazer terapia até hoje. Se me perguntarem se eu acho que estou magra, minha resposta vai sempre ser não”.

Gordinhas e felizes?

No outro extremo da balança, existem mulheres gordinhas que se dizem felizes com sua aparência. Um exemplo é a publicitária Cristina Lhacer, que tem 1,62 m de altura e pesa 82 kg (já chegou a pesar 150). “Eu sei que nunca vou ser magra. Acho que vale muito mais ter saúde e ficar bem do que ser obcecada com o peso”, diz ela, que foi a inspiração da última coleção de Karlla Girotto. Com o nome “Cristina de Verdade”, a coleção de Karlla é uma alternativa jovem e fashion para quem usa tamanhos grandes. “Esse é meu maior problema”, se queixa Cristina. "Só fazem roupas de senhora para as gordas”. Quando perguntamos à Cristina o que ela faria se tivesse a chance de emagrecer do dia pra noite, transformada pela varinha de uma fada madrinha, ela responde: “Gostaria de ter alguns quilos a menos, mas nunca quis ser magra. Ficaria com cara de doente”.

A busca por equilíbrio

O que está certo afinal? Passar a vida fazendo regime ou aceitar estar fora do padrão? Opinião da figurinista americana Patricia Field (de "O Diabo Veste Prada" e "Sex and the City"): “Hoje em dia é muito importante ser magra, mas é uma moda que pode chegar até um certo limite. Depois fica feio e acaba passando. Ser gorda nunca vai voltar à moda, mas acho que a idéia é que as pessoas pareçam saudáveis, essa vai ser a nova onda”, disse em recente entrevista para a Folha de São Paulo.

Terror na Internet

Pesquisando na internet, o Chic se deparou com sites horripilantes, verdadeiras apologias à anorexia e bulimia. Em geral, são criados por jovens problemáticas que dão dicas de como ser uma anoréxica “bem-sucedida”: como enganar seus pais e fazê-los acreditar que comeu, qual é a melhor escova de dente ou o melhor detergente para estimular a garganta e vomitar. Segundo Doutor João César Castro Soares, “se a pornografia na internet é proibida, esse tipo de site também deveria ser”. Nós concordamos com ele!


Kiki Ferreira