Botas de plataforma: a opinião dos intelectuais
04.09.2006

O tema da invasão das botas de plataforma é tão inquietante, que acabou chamando a atenção até dos intelectuais da mídia brasileira – normalmente tão reticentes às manias pregadas pela indústria da moda.

Em matéria recente para o Estado de São Paulo, o crítico de arte Rodrigo Naves discorreu literariamente sobre o acessório, que foi adotado até por Marc Jacobs, na Louis Vuitton, e que, conforme opinou o Chic, deforma as proporções naturais do corpo feminino e inclusive prejudica o caminhar.

As moçoilas adeptas, rendidas à chance de ganhar vários centímetros a mais e, com isso, conquistar o sexo oposto, não concordam com essa opinião. Mal sabem elas que até eles, os intelectuais-que-não-ligam-pra-roupa, não passaram batido pelo sapato! Rodrigo, por exemplo, faz detalhadas comparações entre os efeitos da bota e o trote dos eqüinos.

O Chic reproduz aqui, na íntegra, o interessantíssimo artigo, publicado originalmente em 16.04.06. Confira e, se quiser dar sua opinião, envie um e-mail para redacao@chic.com.br!

Plataformas: centauras soltas nas calçadas
Por Rodrigo Naves

Os calçados são meio pesadões: solas enormes, aspecto bruto, por vezes cano alto, feição militar e enfeites de metal. Mas quem os usa caminha com uma cadência que contraria o aspecto desengonçado dos pisantes. De fato, nas calçadas elas parecem potras trotando levemente. Alçam as pernas como se marchassem num ritmo sensualmente marcial e mantêm o tronco ereto dos que se orgulham do seu porte. As plataformas tornam-nas mais altas e assim, verticalizadas e aéreas, elas celebram as novas alturas com um garbo instável, que combina ascensão e a consciência de quem não sabe bem onde está pisando.

Alguns estudiosos do assunto — como a historiadora da moda Linda O´Keeffe — vêem aí uma adequação das mulheres ao gosto masculino, ao se colocarem em “pedestais, sedutoramente inacessíveis”.  De fato, esse raciocínio deve valer para os chapins, plataformas altíssimas, de até 65 centímetros, que punham damas espanholas, francesas, inglesas e, sobretudo, venezianas dos séculos XV e XVI bem acima dos outros mortais.

No entanto, acho difícil estender esse raciocínio às moças de botas (ou sandálias) de nossos dias. Os pedestais realmente foram concebidos para elevar as esculturas acima do espaço empírico em que eram dispostas e, assim, proporcionar-lhes uma situação em que se diferenciassem das demais formas mundanas, como ocorria também com as senhoras de Veneza, que mal podiam andar sobre seus sapatos, tendo que se apoiar em criados para não caírem ou então manterem-se imóveis como estátuas. Como porém falar em pedestal em relação a essas moças que andam ágeis pelas calçadas, tirando nosso equilíbrio e sossego?

E só podemos compreender o encanto desses calçados meio desgraciosos se os pensarmos dinamicamente. A altura das plataformas muda as proporções das pernas femininas e, com isso, seu modo de andar. Essas solas passam com freqüência dos 10 centímetros. Se considerarmos que uma pessoa de 1,70 metro tem uma canela de aproximadamente 45 centímetros, o aumento da parte inferior da perna fica por volta de 25%.

Essa alteração nas proporções naturais entre coxa e canela — para usarmos termos que facilitem a conversa — obriga as moças a erguerem mais o fêmur para que a parte de baixo da perna saia do chão, e com isso seu andar adquire semelhanças com o trote dos eqüinos. É nessa forma de andadura que os cavalos alçam mais verticalmente as patas da frente, e essa articulação das patas — que “quebram” em três ao caminharem — acentua o contraste com a cabeça e o pescoço aprumados e majestosos. Não faltam aí nem mesmo a lembrança dos cascos, pois essas solas se alargam à medida que se aproximam do solo.

Além disso, como boa parte das solas-plataforma é reta, a articulação do tornozelo torna-se quase impossível, forçando os pés a erguerem-se paralelamente ao chão, o que novamente traz o trote à mente. Em geral, caminhamos com um movimento que vai do calcanhar à ponta dos pés, e ele praticamente se inviabiliza com o uso das solas chatas e rígidas.

Não param aí os efeitos criados pelas plataformas. Quem se dispuser a observar essas jovens nas ruas verá que a diferença natural entre o movimento dianteiro e traseiro do corpo humano se acentua com o uso desses calçados. Se vistas de frente elas lembram o passo quebrado de um trote, olhadas de trás produzem um movimento mais ondulante e contínuo, já que a maior elevação das coxas faz os bumbuns se erguerem mais acentuadamente para cima e para baixo, prolongando a linha das pernas e suavizando o aspecto anguloso das articulações. Não se trata de um rebolado, que, ao contrário, exige que as pernas mal flexionem, que os joelhos sejam forçados para trás, fazendo os quadris jogarem para os lados. Rebolados se produzem bem com sapatos baixos, que simulam de perto os pés descalços, com seu “ritmo antigo”, no dizer de Fernando Pessoa.

A acentuação da diferença de movimento entre os dois lados do corpo produz um efeito admirável: cria a impressão de um alongamento horizontal do tronco das jovens — já que parece que a distância entre os dois lados se amplia —, que então se transformam em verdadeiras centauras e passam a caminhar de maneira ainda mais próxima à dos cavalos, que movem de maneira distinta as pernas anteriores e posteriores. Com as plataformas, essas distinções no caminhar são incorporadas pelas jovens, que assim se aproximam ainda mais dos corpos e dos movimentos dos elegantes eqüinos... mais o tronco ereto das humanas.

Os cavalos já serviram de modelo para muita moda humana. De penteados a biquínis — passando pelas anquinhas do século XIX, pelos saltos altos a empinar as nádegas desde tempos remotos —, muitas maneiras de vestir e dispor o corpo humano tinham seu padrão nos cavalos. O problema surge quando o animal se coloca como um padrão irrealizável por mulheres ou homens, como ocorre com os fios-dentais. A tentativa de igualar as pernas traseiras dos eqüinos, fazendo-as começar nas nádegas femininas, apenas sublinha a distância entre o modelo e a cópia. Não há moça que agüente a comparação, nesse quesito, com um desses admiráveis quadrúpedes.

Paul Valéry, procurando entender a atração de Degas pelas corridas de cavalo, escreveu: “Onde encontrar algo puro na realidade moderna? Ora, o realismo e o estilo, a elegância e o rigor se combinavam no ser luxuosamente puro que é o cavalo de raça”. Acho difícil contestar a afirmação, embora outros animais já tenham servido de exemplo para homens e mulheres. Os sapatos de bico fino e longo usados ainda hoje de fato fazem lembrar o andar dos patos, ao obrigar homens e mulheres a levantar mais o peito dos pés, evitando assim que a ponta dos calçados esbarre no chão. Para quem ache que gosto não se discute, nada a fazer.

No entanto, com as plataformas os eqüinos deixam de ser apenas um modelo de elegância e harmonia. Se estou certo e esses calçados levam a pensar em centauras  (em português não existe o feminino de “centauro”, o que inviabilizaria mencionar as figuras femininas do mito grego, que existiam, com o que parece prudente adotá-lo, como fizeram os franceses com “centauresse”), algo da majestade dos cavalos é posto em xeque com essa mudança.

Sem precisar recorrer ao mito grego, que mencionava os centauros como seres de hábitos brutais — à exceção de Polos e Quíron, que teria educado Aquiles —, seguidores de Dionísio vivendo nas florestas e montanhas e se alimentando de carne crua, podemos verificar facilmente que algo do aspecto híbrido e selvagem das figuras lendárias se transportou para esses calçados e para a forma de andar que determinam. Não foi à toa que modernamente eles apareceram com o movimento punk — “prostituta” no inglês shakespeariano, “porcaria, madeira podre”, nos nossos dias —, no final da década de 1960.

A agressividade daqueles jovens ingleses desempregados se revelava de saída no modo de se vestirem e de se comportarem — uma correlato visual do lema “no future”. Ao contrário das divisas pacifistas dos hippies, os punks era a aparência dilacerada da sociedade que procuravam denunciar, e os coturnos de sola grossa, com todas as suas associações militares e violentas, deixavam claro suas intenções.

Mas o que essas jovens que andam despreocupadas pelas ruas teriam a ver com centauros, cavalos, mitologia grega e o diabo a quatro? Tudo e nada. Nada, se pensarmos academicamente numa incorporação erudita (quase uma citação) desses modelos. Tudo, se entendermos que esses padrões estão por aí, soltos no ar — blowing in the wind — e podem ser usados para responder a situações precisas, com significações mais ou menos claras.

Num estudo pioneiro — “As técnicas do corpo”, de 1935 —, o antropólogo e sociólogo francês Marcel Mauss propunha um programa de estudos que considerasse os usos do corpo, nosso primeiro instrumento, de um ponto de vista sócio-cultural. Do modo de dormir à forma de nadar, haveria uma seleção de atos bem-sucedidos, que responderiam eficazmente aos diferentes contextos sociais em que surgiam. No Brasil, Camara Cascudo procurou tirar conseqüências práticas das propostas de Mauss no seu “História dos nossos gestos”.

Ora, numa sociedade tão pouco natural como a nossa, a eficácia dos usos do corpo tem também uma dimensão decididamente simbólica, e muitas vezes “cada sexo é a imagem dos desejos do sexo oposto”, como notou Gilda de Mello e Souza no admirável “O espírito das roupas”, um estudo sobre a moda do século XIX. Pensando assim, as análises anteriores talvez sirvam para entendermos melhor os sinais emitidos por essa forma de calçar e caminhar, pelo jogo que se quer jogar com essas escolhas.

Até aqui, as plataformas foram vistas mais dinamicamente, com a atenção mais voltada ao modo de caminhar dessas moças. Contudo, é inegável que esses calçados também têm uma presença própria, estática, o aspecto pesadão já mencionado, que estabelece um contraste visível com a constituição feminina. Não foi por acaso que as plataformas adquiriram sua feição mais “violenta” no Japão. São de fato as pequenas japonesas que usam com mais freqüência aquelas botonas de cano alto e solas enormes, muitas vezes acompanhadas de tocantes minissaias. Na terra em que se cultuaram, e ainda se cultuam, os pés delicados e gentis — a ponto de serem deformados pelas faixas que os impediam de crescer normalmente, numa forma de submissão introjetada no próprio corpo feminino —, nada mais compreensível que fossem as mulheres japonesas a protestar mais decididamente contra certas imposições tradicionais que apontavam o lugar que deveriam ocupar na sociedade. As plataformas usadas, por exemplo, por Carmen Miranda certamente não iam nessa direção. Praticamente sandálias com solas e saltos altos, decoradas com padronagens alegres, elas eram mais um adereço (para além do aumento de estatura) na composição de sua figura graciosa.

Essas moças que andam de camiseta cavada, minissaia, cintos com enfeites de metal e botas com plataforma — a meu ver, a combinação mais acertada para o que se quer “dizer” com essas vestimentas — estabelecem no próprio corpo um jogo que, anteriormente, se limitava ao contraste entre homens e mulheres: a discrição e a força cabendo aos homens e a delicadeza às mulheres. As botas viris e marciais apenas acentuam a singularidade feminina, em lugar de masculinizá-las. Como as centauras, trazem uma natureza híbrida que independe da contraposição masculina para se efetivar; e, como as éguas têm uma força selvagem que convém respeitar. A simbiose entre o animal e o humano parece lhes conferir uma constituição superior, uma unidade nova mas imemorial, que a peça “Equus”, de Peter Shaffer, captou bem, ao revelar uma sensualidade crua e metafísica no desejo de fundir cavalo e homem numa unidade capaz de gerar um erotismo imune à tensão entre os sexos.

Olhando essas moças, percebe-se que o jogo entre os sexos aí sugerido mudou de caráter. Não por acaso há um quê de perversão — um sado-masoquismo de brincadeira, humorado e sem vergonha — nesses trajes que lembram as “dominatrix” da tradição sádica. Como num aviso, pode-se ler nelas que a regra agora é outra e que a submissão e a correspondência a expectativas masculinas têm os seus dias contados. Do contrário elas se divertirão entre si mesmas, pois têm uma natureza dupla que a isso autoriza. E sem essa ambigüidade não jogam o jogo.

Infelizmente para mim, aprendi essa lição na prática. Outro dia, caminhava pela rua Maria Antônia, quando vejo vir na direção oposta uma moça clarinha, com os cabelos pintados de um preto fosco, cheio de pontas. Usava saias bem curtas, camiseta leve e as pernas eram falsamente frágeis. Nos pés e pernas trazia dois fabulosos coturnos de solas grossas e macias. Tive vontade de deitar no chão e pedir que ela passasse sobre o meu esqueleto combalido. Não o fiz. O movimento de gente era muito, o espaço exíguo e a agilidade pouca. E o que é pior: tenho certeza que ela desviaria.





Reprodução
A centauresse na visão da artista plástica Margot Pitra
A centauresse na visão da artista plástica Margot Pitra