Entrevista Chic: Clô Orozco e os 30 anos de Huis Clos
22.10.2007

Em 1977, Clotilde Maria Orozco de Garcia, formada pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, começava a produzir peças de roupa e vendê-las para multimarcas. Em 2007, Clô Orozco, como é mais conhecida, comemora os 30 anos da sua Huis Clos, uma das marcas mais elogiadas do SPFW.

O Chic foi até a fábrica da Huis Clos que fica na Barra Funda, em São Paulo, para conversar com Clô sobre a data, que será comemorada com festa nesta quinta-feira (25.10). Em meio às novidades – expansão da linha de acessórios, que inclui óculos, jóias bolsas e sapatos, e a bela marca de 40% de aumento em volume de vendas no primeiro semestre (comparado ao mesmo período em 2006) –, a estilista falou sobre a carreira, criticou a indústria têxtil e explicou por que não consegue se aposentar.


Você tem clientes muito fiéis, certo?
Sim, é algo de que me orgulho muito. O momento mais feliz [para o estilista] é ver uma mulher chic, glamourosa e sofisticada usando a sua roupa. Essa é a mola propulsora da continuidade. E as pessoas sempre me falaram muito que a Huis Clos é um estilo – tanto que eu mesma acabei me convencendo [risos].

Você saberia dizer o que é o estilo Huis Clos?
Cool, despojado. Não é uma mulher que sai com cara de “eu vou arrasar”. A roupa tem uma nonchalance, é uma roupa que... Dá para ir até ali, sabe? Vai para um almoço, para a rua, sai à noite, não precisa mudar a roupa. Está legal em qualquer momento. A mulher que usa Huis Clos prioriza ser chic a se sentir fashion victim e hypada. Essa mulher entendeu que o low profile é mais contemporâneo e tem mais a ver com o que hoje se espera de um gesto feminino.

Clô, você já disse que cria as roupas que gostaria de vestir. É isso mesmo?
É, eu não consigo fazer roupa que eu não vestiria. Esse rigor fez com que a marca nunca escorregasse no estilo. Houve uma época em que as pessoas ficavam dizendo que a minha roupa não era sexy, não tinha decote. Eu acho que a minha roupa tem sensualidade, sim. Ela é sedutora, só que não é óbvia, não vai para o decotão e o justo. Tenho horror ao vulgar; se eu achar que a mulher pode cair na vulgaridade com uma das peças, não aprovo.

A modelagem da Huis Clos é um dos pontos fortes da marca. Como é o processo?
Olha, moulage atualmente eu faço menos, quem faz mais é a Sara [Kawasaki, estilista da Huis Clos]. Quando não acertamos no plano [no molde] vamos para o manequim [para fazer a moulage]. Mantemos um modelista na Clô Orozco [a marca premium, com poucas peças superespeciais] e mais cinco mulheres. Não terceirizo o serviço e é um custo muito caro, mas ao mesmo tempo aqui existe uma busca por modelagens. É muito difícil repetirmos a modelagem de uma peça em outra, mesmo porque se o tecido muda, o caimento também muda. Tem roupa que é mais complicada e passamos por 12 protótipos [peças piloto]. No mínimo, são três.

Queria que você contasse um pouco da década de 80, quando o centro de moda brasileiro deixou de ser o Rio de Janeiro e começou a ser São Paulo. Como a Huis Clos estava aqui...
Éramos poucos aqui em São Paulo. Gloria Coelho, no prédio que dividíamos na rua Hungria. Tinha o Alcides, a T. Macchione, a Zoomp, todos fazendo o começo do prêt-à-porter paulista no Núcleo Paulista de Moda, uma espécie de SPFW da época. Nunca imaginei que chegaria a ter o tamanho de hoje, nunca me imaginei como empresária de moda. Naquele tempo, era um jeito mais hippie de ser e de fazer [risos]. A primeira loja de varejo foi na Dr. Mário Ferraz [em 1981], eu lutei até realmente trabalhar com varejo porque o contato direto com o consumidor é muito difícil. A roupa já era conceitual; se a pessoa não tem atitude para usar... Sempre achei chato ficar empurrando, forçando a cliente a comprar. Nunca quis fazer com que a mulher que use uma roupa que não tenha a ver com seu estilo.

O que você acha da moda brasileira hoje?
Temos ótimos estilistas, alguns trabalhos maduros e redondos que dão satisfação de olhar. Gloria Coelho, Reinaldo [Lourenço], Marcelo Sommer, Andrea Saletto, Maria Bonita, [Maria Bonita] Extra... Entre os jovens, Wilson Ranieri. Ele trabalhou comigo e tive a oportunidade de ver o talento dele de perto. Acho até que ele é muita areia para o nosso caminhãozinho! [Risos] Agora, sobre o mercado, é bem complicado, é bastante heterogêneo. As lojas profissionalizadas pelo Brasil são poucas, existe pouquíssimo comprador que sabe olhar para uma roupa e dar um estilo para a sua loja com um mix de marca bonito e coerente. Aliás, acho que está faltando comprador bom no mundo inteiro!

Aproveitando o assunto, como está a exportação da Huis Clos?
Tem crescido significativamente. Exportamos mais Maria Garcia [a segunda marca]. É difícil porque a gente não tem preço, nem matéria prima. A minha discussão com a ABIT é sobre alíquota de importação – ela aumentou de 18% para 26%. O ideal para aumentar a exportação é mexer na alíquota. Claro que não quero que entre roupa da China e que acabe com o mercado de moda nacional, mas um tecido entrar por 48 euros o metro? Existe a proteção na indústria têxtil, o lobby. As pessoas dizem que eu sou corajosa, mas a verdade é que quero brigar pelos meus direitos, sou politizada. Não exportamos por causa de matéria-prima e preço. Enquanto não houver reforma tributária, não muda a situação. Precisa desonerar para o preço ficar competitivo, e não estou falando de China, a gente não consegue competir nem com Europa!

Quem é o país que mais importa suas marcas?
Os EUA. Não é um volume considerável, mas tem crescido bastante. Cada vez que eu vou pra Nova York as americanas perguntam da minha roupa, você vê que faz sucesso, mas comprador aposta em quem ele conhece. E ele está certo, pois se não vende, ele é quem vai ser culpado. Agora pretendo internacionalizar a marca, fazê-la ficar mais conhecida no exterior.

O que você pensa sobre a tendência de grandes grupos comprarem marcas de moda?
A venda para grandes grupos é recente, e no Brasil é mais recente ainda. O que eu sei é o que aconteceu com Helmut Lang, Jil Sander. O estilista perde a liberdade, não quero isso para a minha marca no futuro. Quero ter segurança de que a filosofia da marca continua. De qualquer forma, até hoje nunca fui procurada.

Quais são os planos para a comemoração de 30 anos da Huis Clos?
Vamos fazer uma festa, que vai acontecer aqui na fábrica. Existe um plano de um livro que fará parte de uma coleção de estilistas e moda nacional, da CosacNaify. Existe um namoro para um livro maior... Mas isso não é coisa para esses 30 anos, ainda.

Você já disse em entrevista que iria se aposentar. Já existe uma data para isso acontecer?
O sonho, na verdade, é ter um ano sabático, mas isso é uma utopia! Ser empresária é algo que me dá prazer hoje, gosto muito do lado business. O difícil é se dividir, cuidar de tudo. Há horas em que você diz “eu quero me aposentar!”, mas é mentira... [Risos]

Você parou de desfilar durante um tempo e só voltou em 2004...
Ai, foi ótimo, não desfilar era um sonho de consumo! [Risos]. Digo isso do ponto de vista de qualidade de vida. Você não dorme mais no carpete, no sofá [ela fala apontando para os locais do seu escritório] para conseguir fazer tudo. Mas, ao mesmo tempo, não está na mídia. E pensar que no começo eu queria fazer pós-graduação em economia, seguir carreira acadêmica... Nunca ia imaginar!


Jorge Wakabara