|
Tem novidade se espalhando sobre o Fashion Rio, semana de moda carioca que dá seu start no dia 07.01. E a primeira surpresa no line-up é a marca Homem de Barro, que desfila inserida no grupo de novos estilistas convidados. Da estilista Aline Rabello Dias e seu marido, Marcio Duque, a marca que surgiu em 2002 vem de Niterói e já era conhecida entre iniciados no circuito fashion do Rio. O Chic conversou com Aline pelo telefone sobre esse novo momento.
A história da Homem de Barro começou em 2002 – o que vocês faziam antes? Eu era estagiária na Chreemtex na parte de estilo, quando esse departamento nem existia [a Chreemtex era uma empresa de importação e beneficiamento têxtil]. Criamos o departamento aos poucos, e conheci o Marcio lá, ele era gerente financeiro. Casamos, e eu resolvi sair para abrir uma coisa minha. O Marcio também saiu para abrir uma empresa na indústria automativa que não deu certo por problemas de sociedade. Inclusive, a empresa que ele abriu era uma forma de injetar capital de maneira rápida na marca. E eu que tinha acabado de sair do mercado porque não agüentava mais trabalhar em escritório, imagine, acabamos cheios de dívidas. A parte de estilo sempre foi a minha praia, até cheguei a ir em entrevistas nessa época, mas não era o que eu queria.
Foi aí que vocês foram vender bolsa na praia? Foi, eu perguntei para o Marcio se ele topava ir para a praia vender bolsa e ele topou. Eu costurava na máquina da minha avó e ele fazia as alças de madeira – não tínhamos dinheiro para terceirizar nada. O carro virou um ateliê. Ficávamos entre as praias do Rio, Niterói e Búzios. Foi aí que apareceu um outro sócio querendo investir. Ficamos dois meses produzindo, afinal, ele tinha garantido o investimento, mas ele além de nosso sócio era dono de um bingo! [Risos] Acabou sumindo e ficamos com um monte de bolsa, sem ter como distribuir essa quantidade toda de produto. Aí decidimos abrir uma loja com dinheiro emprestado da minha mãe. E no dia que cortaram o telefone da loja por falta de pagamento...
Nossa! [Risos] Pois é! Bem nesse dia recebemos um telefonema da Firjan. Era 2004, e fomos convidados para fazer parte do Pólo de moda de Niterói dentro do Fashion Business [a feira de negócios do Fashion Rio]. Quando chegamos na reunião, percebemos que eles não estavam chamando a gente como marca de acessórios, mas como marca de roupa!
Como assim? Então, aí que eu me toquei que teve uma época que eu fiquei de molho por causa de problema de tiróide, e fiz uns croquis que acabei mandando para Eloysa Simão [a diretora do Fashion Rio]. Tivemos, no fim das contas, quinze dias para fazer a primeira coleção de roupas. Modelei, cortei, só não costurei, e tudo sem R$ 1 de capital, era tudo apoio. Logo nessa primeira coleção, fechamos uma venda para Itália e desde então só estamos crescendo.
Como vocês definem o estilo da Homem de Barro? A moda da Homem de Barro é para quem gosta de contar história. Nada é gratuito, sempre tem uma história para contar em cada detalhe, depois que pensamos nas outras coisas, nas tendências – que a gente também segue, já que é uma roupa para vender. Mas é uma roupa que você não vai achar em lugar nenhum, a peça tem uma personalidade. Cada roupa, aliás, é acompanhada por um texto pequeno sobre a história que serviu de base para a coleção.
Sempre tem um trabalho artesanal nas peças, é proposital? Como a gente começou sem capital, eu não tinha dinheiro para comprar tecido especial. Uma forma de incrementar o algodão foi bordar, acrescentar detalhes, isso foi agregando valor à marca. Coisas como modelagem especial, tecido especial e estampa exclusiva foram acontecendo depois. De qualquer forma, primeiro vem o conceito e hoje, por acaso, estamos fazendo bordado. Só que o principal não é o caráter artesanal, é o conceitual. Hoje estou feliz fazendo isso, mas não necessariamente vamos seguir fazendo coisas artesanais.
Qual é o tema da próxima coleção, que será apresentada no Fashion Rio? É o Jornal das Moças. Era uma revistinha para moças de boa família que circulou dos anos 30 ao 60. Uma bíblia da futilidade feminina, com receitas, parte de moda... Estamos nos focando mais nos anos 40, porém com um shape contemporâneo. O padrão de beleza era Rita Hayworth, essas divas de cinema, e as leitoras eram amélias, donas de casa que queriam ser artistas. A gente pegou principalmente a parte gráfica da revista, a formatação, brincamos com os textos, os anúncios. Tem uma estampa, por exemplo, com um anúncio do Creme Rugol! [Risos]
Por que desfilar agora? Tudo começou com um projeto de passarela há três anos, como eu já disse naquela história dos croquis. Hoje somos uma empresa de verdade, o negócio ficou sério, e não um bico para sobreviver. Temos em mente que o desfile deve ser uma estratégia de marketing. A própria Eloysa Simão foi no lounge da Firjan e ela que nos convidou. Mandamos o material, passamos pelo processo seletivo e fomos chamados. Agora é hora de alavancar a marca numa vitrine maior, dar a cara a tapa para valer.
O que as pessoas podem esperar da Homem de Barro na passarela? Vai ser um susto bom. A gente sempre fez uma moda diferente, mas era uma coisa mais simples. Agora é mais moderna. Os bordados e o artesanal sempre puxam para o lado romântico, acho que dessa vez vamos mostrar uma garota mais má, é mais rock ‘n’ roll. Só que sem deixar de lado as fitinhas e os bordadinhos! [Risos]
Jorge Wakabara
|