Encontro com Vivienne Westwood. Nono andar, suíte do hotel Emiliano, sexta-feira, dia 18 de janeiro de 2008, meio-dia. Mentira, meio-dia e quinze, porque a inglesa, quem diria, não foi pontual. Aos 67 anos, a estilista que veio a São Paulo para lançar sua versão de mary jane de plástico não está mesmo correndo para dar entrevistas – já estavam vetadas, por exemplo, perguntas sobre sua vida pessoal e seu passado punk.
Bom, mas o que mais há para saber da Queen of punk? Muito. Que a cor original de seus cabelos é o castanho, quase branco, mas que ela descolore os fios e aplica, com as próprias mãos, henna. Que seu delineador pode ser de qualquer marca, desde que seja um vermelho, que vai por baixo, e um verde, que cobre o traço feito pelo primeiro. Ok, é brincadeira. Há mais e melhores infos.
Sensível, amável e de gestos delicados, essa senhora com jeito de rainha – e sotaque de plebéia, não é preciso ser um Professor Higgins para saber – tem olhos afiados para o belo. Ou para o extremo oposto disso. "Estou sempre absorta em minha mente. No carro, não olho muito para fora e algo só me chama a atenção se é muito feio", diz. Na sua lista de pontos negativos estão as regatas e o interior do British Museum.
Na outra lista estão o incrível castelo Vaux le Vicomte, a poucos minutos de Paris; o belíssimo Institut de France (em frente ao Louvre); a sua casa, construída no século XVIII, e alguns prédios antigos, londrinos, que estão sendo (ou já foram) derrubados. "Não sou contra os prédios modernos, mas acho terrível acabar com um trabalho artesanal, de tijolos e pedras, que não se faz mais hoje em dia".
A pressa desse hoje em dia, de renovar tudo e descobrir o que há de mais novo o tempo todo, vem incomodando Vivienne. Por isso ela fez um manifesto em que se posiciona contra o consumo impensado, que é efeito desses tempos em que a propaganda é quem manda. Mas cadê que ela vai parar de anunciar? "Se eu parar, não entro nos editoriais das revistas", sai-se. As revistas de moda, vale dizer, ela as ignora todas. "Não há nada para ver. Parece que as páginas são iguais".
Tudo isso ela fala com uma suavidade incrível. Mas na hora de explicar o manifesto, que diz respeito a cultuar a arte como forma de combater a propaganda, sua voz assume uma dramaticidade velada que inspira o mais empedrado coração. "A arte é aquilo que melhor o ser humano é capaz de fazer. Não há progresso na arte, ela não envelhece: é ótima, ou simplesmente desimportante".
A lista da arte importante: Ticiano, Debussy, Chopin, Mozart. "O último grande artista foi Matisse". "Turistas vão ao Louvre e fotografam a Monalisa sem pensar o que aquilo significa para suas vidas. Informação você pode ter lendo os jornais todos os dias. Mas é preciso se aprofundar e só a arte lhe dá isso. Os artistas se vendem e parecem dizer "olhem para mim". Ora, 'get a life'".
No mundo ideal de Vivienne Westwood, cada um pensa por si, compra menos e melhor, se cultua e se veste muito bem, como que num exercício de estética que deve ser posto em prática do acordar ao dormir, da pasta de dente à sandália de festa. Nesse mundo, ninguém tenta ser Kate Moss. Se ela é mesmo rainha, melhor reter essa mensagem.
Milene Chaves
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