O último dia do Pense Moda teve uma das palestras mais aguardadas, a do filósofo norueguês Lars Svendsen. O autor do livro Fashion: a philosophy falou sobre crítica de moda. O Chic aproveitou para conversar com ele antes. Confira:
Você afirmou, em agosto de 2008 numa entrevista a Alcino Leite Leito, da Folha de S. Paulo, que a lógica tradicional da moda é a lógica da substituição, mas que nos últimos 10, 15 anos vem sendo definida pela lógica da suplementação, em que todas as tendências são recicláveis e em que uma nova moda não tem por meta tomar o lugar de todas as que a antecederam, mas se contenta em suplementá-las. A lógica da suplementação é a que vale agora?
Sim. Neste momento existe uma coexistência de tendências. Claro que é possível identificar algumas mais fortes, como os anos 1980 nas últimas coleções de Marc Jacobs, Dries van Noten e Chloé, por exemplo. Mas atualmente é quase impossível você olhar uma pessoa e não identificar alguma tendência ali. São tantas que é difícil não usar alguma, mesmo que inconscientemente.
...Isso ajuda a diminuir a importância das tendências?
Com certeza.
Que aspectos devem ser levados em consideração ao analisar um desfile?
O mais importante é fazer um julgamento. Os jornalistas precisam aprender que o papel deles é criticar e não servir aos estilistas e marcas. É papel da imprensa criar o criador. Para ser levada a sério, a moda precisa de crítica séria.
Como elaborar uma crítica quando muitas marcas compram bureaux de estilo e apresentam propostas semelhantes?
É o dever do jornalista apontar isso. É uma maneira de provocar os estilistas a trabalharem melhor e não ficarem acomodados. O problema é que os jornalistas de moda estão acostumados a achar tudo lindo e perfeito, são cheerleaders das coleções. Fora que precisam expandir o olhar. Todos querem escrever sobre alta-costura porque apreciam o valor artístico dessas coleções, mas a H&M, por exemplo, merecia críticas das suas coleções. Parece que quanto mais vendem, menos importante se tornam para o jornalista.
Você diz que “a moda, na prática, não faz mais que se repetir e perder pouco a pouco o significado”. Ao mesmo tempo, acredita que nos entediamos facilmente, por isso ansiamos por algo novo e interessante. Esse paradoxo então confirma que moda (atualmente) = tédio?
[Risos] Nós tentamos sempre acrescentar ao nosso guarda-roupa algo novo e esse é o grande desafio da moda: encontrar algo que consiga nos desentediar. O problema é que a lógica capitalista não nos deixa sentir completos com uma peça de roupa. Enjoamos fácil e em pouco tempo precisamos achar algo mais novo e interessante.
Que roupas te tiram do tédio?
Comme des Garçons. O problema é que nunca consegui encontrar uma peça que me sirva lá. Eu sou grande, então elas simplesmente não entram. Acho as roupas de Rei Kawakubo muito interessantes, mas ao mesmo tempo me parecem assexuadas. Gosto de Paul Smith também, pois sinto honestidade no tipo de roupa que ele faz: é um alfaiate britânico e trabalha de acordo com essa descrição. Mas, para trabalhar prefiro algo que comunique pouco. Hoje, por exemplo, estou usando Hugo Boss, uma roupa mais conservadora, pois quero que o meu discurso chame atenção, não o que visto.
Você falou da importância da H&M. Na Noruega as pessoas são muito ligadas ao fast-fashion?
Sim, claro. Especialmente a H&M. É engraçado as pessoas do Brasil acharem a H&M tão cool. Claro que as parcerias com os designers ajudaram a deixar a imagem da marca mais fashion, mas para nós é tão normal e não tão legal assim. A verdade é que os noruegueses se vestiam muito mal até pouco tempo. Mas estão melhorando. Olha eu aqui falando mal dos noruegueses de novo. Melhor parar...
...Por quê?
No meu livro [Fashion: a philosophy], eu disse que os críticos de moda noruegueses nunca haviam falado mal de um desfile sequer. Aí uma jornalista, que havia ganho o prêmio de melhor do ano, não gostou e disse: “é mentira que nunca fiz uma crítica negativa. Um dia falei mal de um desfile da Diesel”. Ou seja, isso só confirmou minha teoria. É mais ou menos como um crítico literário dizer: “eu já fiz uma crítica negativa sim, falei mal de um livro do Paulo Coelho”. [Risos]
O que é chic para você?
Estar com a aprência ótima, mas sem parecer que se esforçou muito.
Vitória Guimarães