Moda

A Gisele Bündchen plus size: top internacional Fluvia Lacerda fala sobre publicações de moda nacionais e mercado de moda GG no Brasil

Apesar de ter uma carreira internacional bem-sucedida, a modelo carioca Fluvia Lacerda não é conhecida pelos brasileiros. Por quê? Porque, ao contrário das angels Alessandra Ambrósio e Izabel Goulart, ela é um dos grandes nomes do mercado GG, em que é conhecida como “Gisele Bündchen plus size”.

Aos 29 anos, Fluvia foi descoberta por acaso dentro de um ônibus há sete anos - na época, atuava como babá em Nova York. Hoje cobra cerca de US$ 10 mil (quase R$ 18 mil) por um único dia de trabalho.

No Brasil para movimentar o mercado GG nacional, Fluvia recebeu o Chic para conversar sobre como virar modelo plus size, as dificuldades das gordinhas no país e quais seriam as possíveis soluções.

Como uma gordinha faz para se tornar uma modelo plus size no Brasil?

O problema das meninas que querem ser modelos é o seguinte: não adianta ter 50 mil candidatas e cinco clientes. Não vai rolar. Não adianta querer ser modelo plus size no Brasil ainda, não tem mercado. O que eu tenho dito é que, se elas querem trabalhar como modelo nesse mercado, primeiro tem que colocar a boca no trombone como consumidora. Tem que mandar email para as marcas dizendo que quer numeração maior, que tem poder aquisitivo, que quer comprar a mesma calça que a irmã que usa 36. Escrever para revistas. Se elas servem para dar inspiração de como se vestir, diga que quer ver uma modelo GG bem-vestida. O difícil é que o pessoal aqui no Brasil sabota. Estou tentando empurrar para que o mercado aqui dentro cresça, mesmo porque, a demanda no Brasil é enorme, é uma clientela que existe e os poucos que estão nesse mercado estão faturando milhões. Não tem concorrência.

Quais são os critérios para se tornar uma modelo plus size?
No mercado de modelos magras, os critérios já estão bem estabelecidos, não basta ser magra e alta. A mesma coisa se aplica ao mercado de modelos plus size. Tem que ter altura, proporção, fotogenia. Não basta ser bonita. Quero fortalecer esse mercado aqui no Brasil para as meninas poderem trabalhar. Como sou um dos nomes mais conhecidos desse setor lá fora, essa é uma briga pessoal: mostrar que as mulheres, cada uma com seu próprio formato de corpo, tem que ter a sua beleza valorizada. Eu venho para cá e sofro porque não consigo achar nada bacana nas lojas e tenho que trazer dez malas!

Uma recente pesquisa de uma universidade americana disse que propagandas com modelos gordas não incentivam as mulheres a comprar, mas sim abalam sua autoestima. O que acha disso?
É, mas aí não mostra o outro lado que aconteceu lá. Se você pega uma modelo magra e coloca uma maquiagem horrorosa, roupas medonhas e iluminação apavorante, fotografa e bota numa revista, eu te garanto que mulher magra nenhuma vai querer comprar. Você não pode me dizer que não tem demanda se você não está suprindo. É preciso colocar uma imagem benfeita em vários veículos para você me dizer isso. Se isso fosse verdade, como ouvi de um fotógrafo brasileiro no ano passado, “ah, isso é febre, vai passar, o mundo da moda não vai aceitar gordas nunca”, por que a Anna Wintour, a Elle Francesa e a Vogue russa aceitaram? Quando o Patrick Demarchelier fotografou um editorial com uma top que vestia 46 numa mega produção as vendas da revista bombaram!

Por que as modelos GG são tão frequentemente fotografadas nuas nas revistas de moda internacionais?
Isso está mudando. A consumidora lá de fora está dizendo: “gente, quero que você me mostre como me vestir, pelada eu já sei como sou!”. É uma coisa progressiva, acho que essa foi a primeira fase. E também escandaliza e, se escandaliza, vende.

Mesmo quando usam modelos consideradas plus size, os veículos buscam o mínimo da categoria e não uma gordinha mesmo. Por quê?
O mundo da moda e o do consumo são dois universos diferentes. O mundo da moda tenta fazer e diz: “vamos dar uma moedinha e colocar uma mulher com manequim 42”, que, para a moda, é uma obesa. Ultimamente até 38 já está valendo. Eles acham que a consumidora é idiota! O que eu não queria que acontecesse é esse lance de empurrarem a modelo 38 como plus size.

O que você acha de te chamarem de "Gisele Bündchen plus size"?
Acho muito engraçado. Sou a única brasileira lá fora fazendo esse tipo de trabalho e realmente sendo plus size. E brasileira tem aquela questão da sensualidade, da ginga, que só a gente tem. Começou assim, um disse, o outro disse, pegou. Acho que fizeram a associação com a brasileira mais famosa pela sensualidade, a Gisele.

Como você enxerga as publicações brasileiras de moda?
Você não acha inspiração de absolutamente nada nas revistas de moda nacionais. Eu vim exatamente porque quero mudar essa mentalidade, fazer editoriais de moda em todos os veículos que eu tiver a chance. Mas eu quero mostrar qualidade, não alguém que me inclua e depois fique dizendo pelas costas: “ui, que coisa horrorosa”. Quero ter certeza que será o mesmo tratamento de qualquer outra modelo, com fotógrafo legal, roupas lindas, acessórios bacanas. Eu quero fazer os editoriais de moda porque eu acho que investidores, mídia e marcas, nunca visualizaram a possibilidade.  As pessoas no Brasil nunca foram expostas a esse tipo de informação de moda porque a gordinha aqui é sempre a simpática, a engraçada, a empregada doméstica. Ela nunca é uma mulher atraente, que se veste bem, usa um sapato carésimo e tem um galã de novela atrás dela. É sempre a chacota. Então, esse lance de mostrar o contrário com campanhas e editoriais de moda, é exatamente uma espécie de reeducação visual, de olhar a foto e pensar: “caramba, eu posso ser linda”!

Notícias Relacionadas

Compartilhe este conteúdo

Enviar por E-mail