Moda

Entrevistão: João Pimenta, estreia do SPFW, fala sobre o verão, preços e a moda masculina

Estreia do SPFW de verão 2011, João Pimenta desfila há cinco anos no line up da Casa de Criadores e, nas últimas temporadas, se tornou um dos nomes mais talentosos da moda masculina nacional, trabalhando elementos das roupas femininas e criando imagens fortes e elaboradas.

Com a mudança para o prédio da Bienal, João se torna uma das grandes estrelas do SPFW. O Chic bateu um papo com o estilista, falando sobre processo criativo, vendas e o futuro da moda para os rapazes. Leia abaixo:

SPFW
"Já tem um tempo que, a cada temporada, eu tento falar com o Paulo Borges. Desta vez mandei um projeto de coleção, para ver se ele tinha interesse. Fechamos há menos de um mês!".

Inspiração carioca
"A coleção nasceu de 15 dias que passei no Rio de Janeiro. Tinha um pé atrás com a cidade, mas acabei me envolvendo, tive contato com as histórias antigas. Foi a primeira vez que fiquei cara a cara com o Carnaval de lá, de perto. Voltei com um sentimento louco pelo Rio!".

O verão
"É uma coleção com cara de Brasil Império, de Rio de Janeiro em 1800. Estou olhando para a chegada da família portuguesa, quando abriram os portos para os tecidos ingleses e franceses e todo mundo começa a querer ser europeu, a copiar as roupas sem saber como eram construídas. Estou misturando essa imagem, mais uma coisa dândi, com uma pegada surf, de roupa de menino ir à praia. Vou fazer um pouco de beachwear também, pela primeira vez. É tão difícil achar um maiô bacana...".

Processo criativo
"Não tenho um grande método, uma coisa vai desencadeando em outra. A mistura do masculino com o feminino começou naquela história do quadril [inverno 2009]. Achei que seria muito criticado, com aqueles homens 'quadrilzudos', de cintura fininha. Mas foi quando percebi que pela primeira vez as pessoas viram o trabalho e curtiram de verdade. Aí eu vi que essa coisa mais radical funcionou".

Conceito versus comercial
"Estou com uma mão ainda mais pesada para este verão, está bem arriscado. Sei que tenho que embutir peças mais viáveis, mas não adianta querer ser básico, ainda mais por ser uma estreia. A coleção tem que estar mais apurada, pois a visibilidade é muito maior! Estou quebrando a cabeça".

Expectativas
"Estou mais nervoso com a coleção do que com o evento. Foram cinco anos na Casa de Criadores, onde eu já sabia como funcionava. Agora é outro jogo. O problema é a expectativa que se cria. Isso é péssimo! Me sinto com uma obrigação maior. Imagina se as pessoas detestarem?".

Vendas
"A produção da marca ainda é pequena. Enquanto eu não tiver ninguém me ajudando no administrativo, não tenho como aumentar. Não tenho estrutura emocional para ser empresário. Adoraria ver a marca crescer, mas não posso fazer isso sozinho".

Sobre os preços

"Eu faço questão de manter um preço real. Ainda produzo pouco, desse jeito mais caseiro e, por isso, tenho noção do custo de tudo. Não acho justo gastar R$ 50 e vender por R$ 5 mil, não condiz com o que eu acho da vida, com a minha história e origem, de família pobre. Cobrar caro não é o que valoriza a roupa".

"Conforme eu for sofisticando o trabalho, o preço vai aumentar. Mas tem marcas que vendem camisetas simples a R$ 200, colocam R$ 1.800 em cima de uma peça que não vale, é surreal".

Olhando a moda masculina
"O foco no masculino foi super acidental. Quando abri a loja, os meninos vieram e começaram a procurar peças, a comprar roupas femininas. Aí eu vi que tinha um espaço dentro desse universo".

"Nada foi testado na moda masculina, fica todo mundo centrado naquele quadradinho, achando que é o que eles querem. Mas não é, ainda mais no Brasil. Parece estranho, mas é verdade. A gente não tem uma elegância definida, uma imagem padrão, como os europeus. Tem gente que se veste de tudo quanto é jeito. Por isso que eu acho que tem uma abertura maior, pela mistura de estilos, cabeças, raças, classes sociais".

"E aí você tem o espaço, mas não tem o produto. Por mais modernas que sejam, as marcas ainda ficam naquele padrão pra vender, sem modelagem, sem forma, sem nada. Tem gosto pra tudo, como diria minha mãe".

Notícias Relacionadas

Compartilhe este conteúdo

Enviar por E-mail